O tempo que hoje me leva, que me leva e me traga
Que amanha me traga, que me traga e me leve
Mas peço lhe, que não me traga sem a minha bandeira, sem o meu brasão
Que não me entregue de novo a tão virgem terra, sem um hino com dedos ao peito
Caso tal aconteça, que me traga de mãos abanar, refugiado num só coração
Ou que me traga nas historias de alguém, e repousado num caixão vidrado
Que todos vejam a transparência do meu corpo, e o transpirar do meu espírito
Sem nada para provar, nada mas para ser, donde mas nada há-de vir
Contudo, brindo ao amor, contudo lindos são os lavoures ao tempo, que leva os meus amores
Declaro mesmo depois de morto a minha dedicação, o meu orgulho, o meu tesouro
Tantos herdeiros, tantos corações vagabundos a precisarem de abraços sinceros
Tantas bocas a precisarem de palavras, mãos a precisarem de apertos
Atentos aos erros dos outros sem precisarem de talento
Dentes de liberdade de expressão, expressão de motivos para se soltarem
Haréns sem donos, donos sem donas, corações sem molas, parafusos soltos estão
Pão-nosso de cada dia são, para cá vão, nem certo, nem em vão, assenta vos então
Gestos sem emoção, experiencias sem lição, reacção sem acção, assim no barulho disfarçam
Amam sem noção, sonham sem visão, vivem sem perdão e morrem na mais rasca versão
Repito…repito… E que nenhuma palavra se perca, nenhum ponto se acrescenta
Amam sem perdão, sonham sem noção, vivem numa só versão, e morrem como uma visão
Espero não ter mudado nada, não ter interferido no julgamento, pois não foi a minha intenção
É que… é que já não sei a diferença entre o inicio e o fim, sem passar pelo presente
Não façam como os meus versos que não me perdoam, já vos disse que foi sem crer ser
Alias, sem crer ler…ler? Eu não as leio, porque são parte de mim, tomo as por adquiridas
Tomo as por entendidas, são minhas! O que há mas para entender? Ou compreender e ser?
Não há mas nada, nada, ouviram? Sou assim, como seria doutra maneira sem elas,
Mas…
Mas nada…não há um pingo de arrependimento em mim
Não há nada, se há? Não quero saber
Deixa as lá, desde que não me impeçam de ser, ser …sim eu quero ser
Eu quero ser, e não pode ver nada no meu caminho…apenas terra batida sem alcatrão
Vão, quero lá saber de vocês, desde que me tragam notícias dos meus amores
Notícias boas de preferência, que de más, já me bastam vocês, é mesmo isso, vocês
Todos vocês, sem excepção, Se não fosse por vocês os meus amores ainda estariam cá
Cá dentro, aconchegados, resguardados no meu furioso coração,
Feito para amar. Pronto! Confesso, e odiar também (espero esquecer disso)
Se não fosse por vos, que invadíeis o meu coração sem permissão, sem permissão!
Mas… mas eu vos convidei? Vos convidei? Que eu saibam não, nem ao ódio nem ao amor
Não convidei nenhum de vos, que fáceis em matos alheios? Ah? Digam me?
Ainda querem opinar? Ainda querem criticar o que faço e como faço?
Mas… Mas alguém vos pediu alguma coisa? Alguém vos pediu opinião?
Deixem me ser. Eu quero ser sem a razão, quero ser sem o moralismo
Eu quero ser todos os sentimentos sem tirar, só por, mais e mais
Quero ser todos os ângulos, todas as perspectivas e ópticas
Quero ser odiado, quero ser repudiado, quero pisado e maltratado
Só não quero ser ignorado, nem que tenham pena de mim, muito menos piedade
Tenho as minhas pernas para andar, coração para amar e cabeça para pensar
Julguem me na praça publica, façam como entenderem melhor
Mas perante isso exijo igualdade, exijo o perante o mundo
Porque a nossa capacidade de amar é o mesmo
Esse é o meu testamento, entregue a ninguém, abandonado a todos
Eu sei que o testamento é pobre, vazio sem muito para dizer
Mas espero que o tenham sempre presente, quando acordam e quando dormem
Que o encham de alegrias e aventuras amorosas
Que o preencham com saudades das colisões humanas
Porque quando eu morrer, a única réstia de esperança, vira embalsamada
E que um dia, todos possa gritar mais alto que o silencio da palavra amor
Mas é uma pena que não terão mais tempo para a repetir, mas que digam antes da lágrima:
“QUANDO EU MORRER! IREI TER IMENSAS SAUDADES MINHAS”